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por Hellen Reis Mourao

A história de Rapunzel em "Enrolados"

O filme Enrolados, é uma adaptação do conto de fadas Rapunzel. Que apesar de manter a estrutura do texto original nos mostra uma mudança significativa no comportamento feminino.

O filme começa com uma velha bruxa chamada Gothel, que é a única a ver uma gota de pura luz de sol atingir o solo, criando uma flor mágica, com a capacidade de curar doentes e feridos. 

Ela a utiliza para manter-se jovem quando canta para a flor. Centenas de anos mais tarde, a rainha de um reino próximo adoece enquanto esperava um filho. Os seus guardas, em busca de uma cura, encontram a flor misteriosa. Eles fazem uma poção com a flor, que cura a rainha e ela dá à luz uma menina chamada Rapunzel. Gothel descobre que o cabelo dourado de Rapunzel mantém a habilidade de cura da flor (desde que não seja cortado), por isso ela sequestra a menina e a isola em uma torre, criando-a como sua própria filha.

Aqui há mudanças importantes em relação ao conto original. A primeira é que, no original, Rapunzel é dada à bruxa devido a um acordo do pai com a mesma que o flagrou roubando hortaliças de seu jardim para sua mulher grávida. E a bruxa no original tem somente a intenção de ter a filha só para si. No filme Gothel sequestra a menina com a intenção de se manter jovem para sempre e a criança não é dada, ela é sequestrada.

Essa mudança da figura da bruxa demonstra uma mudança interessante no aspecto da consciência coletiva atual que é a busca da juventude eterna. Gothel é desesperada pela juventude e pela beleza eterna. Há uma fixação com o corpo, assim como em muitas mulheres hoje em dia! Hoje é quase um sacrilégio envelhecer! E com isso muitas mulheres mutilam seus corpos em busca de juventude eterna.

Esse aspecto da busca da juventude eterna já foi brilhantemente retratado no romance de Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”, que relata a estória de um jovem que devido a sua beleza física, se tornou modelo para uma pintura e, enquanto seu retrato definhava, revelando a decadência que é o seu interior, seu rosto continua com os traços angelicais dos seus 18 anos.

No caso de Gothel, ela faz isso por meio dos cabelos de sua filha, os quais ela impede de cortar. Aqui podemos associar os cabelos ao cordão umbilical que a mãe insiste em manter com a filha. Pois impedindo a menina de crescer, ela teoricamente impede seu envelhecimento.
E assim ela não deixa a menina viver a própria vida, impedindo-a de realizar seus sonhos.

Mas há outra diferença em Rapunzel. No conto original ela é muito mais submissa e somente enfrenta a mãe possessiva quando se apaixona. É nesse instante, quando a menina começa questionar a mãe que ela se transforma em Mãe Terrível e a expulsa do paraíso.
Já em Enrolados ela anseia por sair e ver as luzes que sobem aos céus no dia do seu aniversário. Ela tem sonhos e aspirações e não é apenas um joguete nas mãos da bruxa.
Isso demonstra que atualmente as mulheres anseiam em realizar seus projetos próprios e não somente se entregar ao amor. A fuga de Rapunzel é movida por um anseio e desejo além do âmbito do casamento. Por essa razão, na atualidade, a Mãe Terrível se constela na psique feminina mais cedo.

Gothel é uma mulher presa ao complexo materno. Ela afastou o masculino de sua vida e dos cuidados da filha e, assim como no conto, Rapunzel é sua única razão de viver. Não há menção a qualquer outra atividade de Gothel a não ser vigiar e cuidar da filha. Atividades intelectuais que desenvolveria seu animus e a relação com o masculino não são cultivadas.

Mas no filme há uma diferença pequena, mas significativa. Mesmo com o elemento masculino saindo de cena, o pai em Enrolados não entregaria sua filha tão facilmente e nem cairia na proposta da esposa e da bruxa, por isso a menina teve de ser sequestrada. E ao final ele reaparece na vida da menina, coisa que não ocorre no conto.

Isso significa que seu animus não é tão fraco e ela tem a oportunidade de resgatar essa dimensão de sua psique quando rompe os laços com Rapunzel.

Outra mudança digna de nota é justamente a figura masculina e a relação do feminino com ela.
No filme não há um príncipe, o mocinho é um ladrão chamado Flyn com jeito de malandro que roubou justamente a coroa da princesa no castelo. Além disso, ele não sobe na torre de Rapunzel por amor, mas para fugir de seus perseguidores.

Aqui a figura do masculino se aproxima de Hermes, Deus traquinas, padroeiro dos ladrões e senhor da inteligência e astúcia.

No filme não há paixão a primeira vista e Rapunzel precisa fazer um acordo com ele para sair da torre. Se ele a levar para ver as luzes e trazê-la de volta em segurança, ela devolve a coroa a ele.

O que há de interessante nessa mudança é que a mulher vem ao longo do tempo parando de sonhar com um príncipe encantado e com amor a primeira vista. Agora elas anseiam com uma relação mais real e que percebem que o amor é algo a ser construído por meio do conhecimento e aceitação da sombra um do outro.

Com o ingresso no mercado de trabalho ela teve de desenvolver características que antes eram restritas ao masculino como a inteligência, o intelecto e a astúcia. Observem que Rapunzel teve de aprender a negociar com seu aspecto masculino para que ele a tirasse da prisão.

Somente iniciando uma negociação com seu animus é que a mulher pode se desligar do complexo materno. Pois, como é dito na psicanálise, é o masculino que faz a interdição entre mãe e filho. E isso é bem significativo, pois é ele quem corta os cabelos (cordão umbilical) de Rapunzel ao final.

E quando ocorre esse corte do cabelo Gothel tem de aceitar seu envelhecimento e maturidade. A figura da mãe terrível e seu aspecto castrador morre e Rapunzel pode estabelecer uma melhor relação com seu próprio feminino e o aspecto materno em si mesma. Quando os filhos crescem e saem de casa é um aspecto desafiante para a mulher. Se a mulher não desenvolve uma objetividade, pode até cair em depressão.

Gothel que é, simbolicamente, a mesma figura que a Rainha, mostra que agora consegue se relacionar com os aspectos masculinos de sua psique, representados pelo Rei. O masculino a conscientizou que ela pode buscar outros interesses em sua vida fora do âmbito da maternidade.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.