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por Hellen Reis Mourao

Merida - A princesa do filme Valente

Em nossa sociedade judaico–cristã, a única imagem da Deusa-mãe que temos hoje é a da Virgem Maria, mas esta vem acompanhada de importantes restrições, de forma a purificar a deusa de sua sombra e de agradar o patriarcado. Dessa forma, vemos que a sombra da deusa ainda não fez sua reaparição em nossa sociedade.

Diante dessa perspectiva temos a animação da Pixar, Valente, que se mostrou um conto de fadas diferente do padrão, uma vez que não há príncipe encantado!

A princesa Merida é criada pela mãe para ser uma perfeita princesa e sucedê-la como rainha. Ela precisa seguir protocolos e etiquetas. Tudo conforme o costume dos antepassados. Mas Merida prefere caçar com o arco e flecha, dado pelo pai, e cavalgar pelas florestas selvagens da Escócia. No entanto, sua mãe tem outros planos, que inclui casá-la. Para isso organiza uma competição de forma a escolher seu futuro marido. No instante que se vê obrigada a casar, ela foge de casa. Dentro da floresta ela encontra luzes que a leva a casa de uma bruxa. Ela recorre então à ajuda dela, que lhe dá uma poção no intuito de mudar sua mãe. Mas quando a poção surte efeito, a transformação da rainha não é exatamente a que Merida esperava. A mãe se transforma em uma ursa. E nesse instante cabe à jovem ajudar a sua mãe, que se não for trazida de volta, se transformará em ursa para sempre, e também a impedir que o reino entre em guerra com os povos vizinhos, uma vez que ela não aceitou nenhum dos pretendentes a sua mão.



















Merida traz em sua personalidade traços de uma deusa antiga e símbolo da Grande Mãe, Artemis. Artemis ou Artemisia é uma deusa da lua, da caça e da vida selvagem. É filha de Zeus e Leto e irmã gêmea de Apolo. Em Roma recebeu o nome de Diana. Ao nascer ganhou de seu pai Zeus, um arco e flechas de prata e também pediu ao seu pai para nunca se casar, uma vez que viu o sofrimento de sua mãe ao dar à luz ao seu irmão Apolo, o que a torna uma deusa virgem.

O arco e flecha, a indisposição com o casamento e a preferência pela vida na natureza faz de Merida uma representante de Artemis. E com isso podemos afirmar que o filme é uma tentativa da psique coletiva de nos fornecer um mito com a filha de uma deusa.

Na Mitologia grega as filhas das deusas costumam ser idênticas as suas mães (assim como o filho é idêntico ao Pai), entretanto são mais humanas e capazes de se sacrificarem em lugar de seguirem cegamente seus impulsos instintivos, de cumprir sua missão e de conter a vingança, a violência ou a piedade irrefletida.

Valente é uma metáfora perfeita da redenção do feminino por meio da relação mãe e filha.
Merida e a sua mãe são aspectos complementares da mesma psique. A rainha é o feminino que precisa seguir as convenções impostas, com comportamentos ditados pela sociedade e que, provavelmente, foi passado por sua mãe. Ela possui um comportamento bastante voltado para o patriarcado, cujas normas devem ser seguidas, e toda a espontaneidade e sensualidade são deixadas de lado.

Merida é o aspecto juvenil cheio de sonhos, indomável, selvagem e que deseja ter autonomia para se casar por amor. Ou seja, ela é tudo aquilo que a rainha reprimiu em si mesma. E por isso tenta reprimir também em sua filha. Mas ambas se identificam uma com a outra. Merida mesmo ao proferir que não quer ser igual a sua mãe deseja em si mesma alcançar a responsabilidade. 













A redenção ocorre quando a menina encontra uma bruxa, que possui um aspecto de velha sábia. A bruxa no filme simboliza a Grande Mãe de modo arcaico, onde positivo e negativo estão misturados. A porção que ela fornece a Merida é boa e ruim ao mesmo tempo, o resultado dependerá dos esforços da menina em reatar o elo rompido com a mãe por meio do remendo da tapeçaria cortada por ela em um acesso de raiva.

O urso - animal na qual a rainha se transforma - é um animal da deusa-mãe, tanto que autores medievais o associavam a Virgem Maria. Na Grécia, havia um culto a Artemis que possuía a forma de uma ursa. Meninas entre 12 e 16 anos eram consagradas aos seus serviços. Elas eram chamadas de ursinhas, pois não tomavam banho e se expressavam de forma grosseira.
Essas sociedades tinham como objetivo proteger a personalidade em formação dessas meninas. Assim elas se lançavam a vida com mais maturidade sem se chocar cedo demais com as questões da sexualidade.

A Mãe-Ursa-Artemis evitava que as meninas se lançassem na vida amorosa e na maternidade cedo demais. Assim elas tinham mais chance que as outras meninas de desenvolverem sua personalidade e seu espírito. Consolidando sua feminilidade e permitindo que os dois sexos se encontrem mais tarde em um nível mais elevado.

Esse foi o caso da Rainha, que se lançou cedo demais na vida amorosa, com o casamento e com a maternidade. E isso a desgastou. Com a poção, a rainha consegue acessar novamente seu lado selvagem, resgatando seus instintos femininos e maternos. E sua verdadeira personalidade, mais branda, mais amorosa reapareceu.

Merida por fim também amadurece se tornando capaz de assumir responsabilidades e de ser uma majestade perfeitamente feliz.

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Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.