por Andrea Pavlovitsch

Lidando com as frustrações

Cheguei na academia atrasada. Na porta, um brutamontes de nome “Paulo” me barrou. A minha academia fica dentro do shopping, que só abre as 10h. Até então, isso não era necessário, mas naquele dia ele queria meu nome e meu RG, para entrar no shopping antes dele abrir. Só porque eu estava atrasada. “Vai na academia? ”. Pensei em responder: “Não, eu gosto de andar com calça colada e sapatilhas no shopping antes dele abrir”, mas me segurei. 

Fiz que sim com a cabeça, pensando na bronca que eu tomaria da Batata (a professora de dança). Ele continuou: “Seu nome? ” e eu “Andrea”, já começando a dar pulinhos nervosos. “Seu RG”. Eu falei rapidamente, porque o meu RG é, literalmente, uma sequência de números. É muito fácil, até a minha sobrinha já sabe (sim, meu pai era amigo do cara do cartório que tirou a minha identidade quando eu era um bebê). 

Ele fez que não entendeu, e pediu para repetir (sério, nessa hora eu já estava para morrer de catapora). Eu comecei a repetir os números, em sequência, bem devagar, esperando que ele anotasse um a um (lembre-se de que é uma sequência). Ele fez isso, levantou os olhos da prancheta e me disse: “A senhora tem certeza de que é isso? ”

Eu notei que naquele dia eu dancei, dancei muito. Estava com raiva. Frustrada de ter que parar e dar satisfações da minha vida para um completo desconhecido. Quem ele acha que é? Só por que tem uma prancheta é dono do mundo? Se eu fosse diferente, ele seria mais simpático? Por quê? Por quê? É claro que aquele era o trabalho dele, só isso. 

Algum mandachuva maior do que ele (ainda que em tamanho eu acho que isso seria difícil), o mandou fazer as coisas assim: pegue, anote, coloque o nome. Poderia ser a loira do Tchan em 1998, que ele faria isso. 

Mas o que me irritou foi não poder fazer nada. Foi a frustração de estar parada na frente dele, repetindo uma sequência óbvia de números, e depender de outro ser humano para fazer a minha aula. Fiquei irritada, nervosa e com fome (sou dessas, rs).

Subi no elíptico e comecei a respirar. Bem devagar, enquanto fazia o exercício. Eu não poderia ficar com aquilo, aquilo não era meu. Que energia que eu tinha pego de um desconhecido, que estava ameaçando acabar com o meu dia? Que coisa ruim.

Passamos por inúmeras situações como essa no nosso dia a dia. São as coisas que não dão certo. Os aparelhos que quebram “bem na nossa vez”. A conta que você não conseguiu pagar e agora tem que ir num banco em Cachoeirinha do Norte para acertar. Todas as más notícias da TV, todos os colapsos financeiros, psicológicos, todas as pequenas e as grandes coisas que enfurecem o nosso dia. Não dá, simplesmente, para entrar nessa onda.

Nessa hora, o melhor é fechar os olhos, respirar fundo e devolver a preocupação para o dono. Se foi uma fechada no trânsito, imagine que você embrulha aquilo para presente e devolve para ele. É uma técnica simples, mas extremamente poderosa. 

Quando não houver um responsável direto, entregue para Deus ou para o Universo. Imagine aquilo se desfazendo e se separando de você. Existem forças poderosas no Universo que só querem isso mesmo, ver você frustrada, para abrir as portas para os maus sentimentos. Não permita que isso aconteça.

O Paulo agora é meu amigo! Eu chego e ele nem pede meu RG mais! Transformei isso numa lição, num artigo e num aprendizado importante. E você? 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.