por Andrea Pavlovitsch

Sem arrependimentos

Um dia a gente acorda. Olha para o lado e se pergunta o que é mesmo que me fez casar com essa pessoa?. Lembra que, naquela época, poderíamos ter tido outras escolhas. Poderíamos ter casado com outro, ou não casado com ninguém. Nos perguntamos por que não fizemos medicina (direito ou cinema) como era a nossa ideia.

Nos perguntamos em que ponto mesmo que as escolhas de outras épocas nos prenderam na situação atual. E, na maioria das vezes, sentimos arrependimento. O arrependimento é estúpido. Não serve para nada, na verdade. Possivelmente se você voltasse no tempo, teria escolhido a mesma coisa que escolheu na época. Isso porque teria a consciência da época, a idade da época, as experiências da época. E o resultado, se não fosse igual, seria muito parecido.

Ainda hoje, talvez, você escolhesse a mesma coisa. O ser humano é guiado pelos seus padrões, é neles que ele se segura. Se eu não tenho um modelo de alguma coisa, vou tender a repetir o passado. E aí está a importância da consciência, de trabalhar a nossa consciência, para não repetirmos os mesmos erros. Uma das minhas clientes veio com umas ideias de arrependimento, por ter escolhido, segundo ela, o rapaz errado há alguns anos atrás.

Ela tinha duas escolhas, mas preferiu ficar com aquele pelo qual era apaixonada. A relação não funcionou como ela imaginou (e por imaginar, vamos entender idealizou) e ela olhou para trás como a única culpada da história toda. Ora, mas e se ela tivesse escolhido o outro rapaz? Será que teria sido diferente? Será que eles teriam tido uma boa vida juntos?

Será que acabariam se casando, ou tendo filhos? Ou será que simplesmente teriam ficado juntos mais alguns meses e descoberto que não, não era nada daquilo que eles queriam? Nunca saberemos, não é mesmo? 

O problema é esse: idealizarmos as nossas escolhas. Pensamos que, se tivesse sido diferente, nós seríamos felizes. Novamente criamos uma fantasia em torno de algo que nem sempre é real. Nem sempre ou quase nunca. Imaginamos que, diante do nosso sofrimento atual, a outra escolha é que era a certa. De novo, nos deparamos com o certo e o errado. O que eu deveria e não deveria ter, fazer, ser, experimentar. Cada experiência é única, não temos como acreditar que a história de outras pessoas nos preencheriam. 

Não temos certeza de nada e, não, não existem escolhas erradas. Escolhas são só escolhas. Só isso. Algo que fazemos com o nosso almoço, nossas roupas, nossas vidas. E sempre é tempo de modificar uma escolha, mudar as nossas vidas. Se não com o mesmo rapaz de alguns anos, talvez com um outro. Se não com a mesma profissão, talvez com um hobbie.

O que não podemos fazer é parar e começar a envelhecer antes do tempo. Reconsiderar as nossas escolhas, não como erros, mas sim como algo que foi feito antes e que podem ser modificadas agora. Eu não acredito em nada naquele ditado a oportunidade é como um cavalo branco, só passa uma vez. Besteira. Estamos lotados de chances e oportunidades em todos os instantes de nossas vidas, basta que tenhamos olhos de olhar.

E não, nem queremos as mesmas escolhas de antes, as mesmas alternativas. Queremos e temos direito à alternativas novas, zerinho, só para gente. Pense nisso quando se arrepender.

O arrependimento só serve mesmo para nos colocar frente a frente com as nossas fantasias e crenças. Arrepender-se, de verdade, jamais.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.