por Andrea Pavlovitsch

Perder para ganhar

Esta semana entrei num novo programa de emagrecimento da minha academia. Chama-se: “Quem perde ganha”, inspirado naquele programa de TV do SBT que, por sua vez, foi copiado (mesmo) do “The Biggest Loser” americano com os devidos direitos pagos e tudo. Neste programa, as pessoas se matam em aulas estafantes, caminham quilômetros numa semana, andam em cima de montanhas, aviões, atravessam vales pendurados em cordas, tudo isso com muitos e muitos quilos a mais. No final do programa, estão todos como modelos fotográficos de vitrine, com abdomens sarados que você não diz que a pessoa foi gorda um dia.

O mais engraçado é que o começo do meu emagrecimento foi muito estimulado por este programa. Uma amiga me deu os DVD´s com as temporadas e eu ia assistindo. Aquilo me animou e me mostrou que sim, mesmo muitos quilos acima do peso, eu poderia fazer exercícios e poderia me superar.

E isso é verdade. Quando comecei meus treinos eu não aguentava com um gato pelo rabo. Fazia 5 minutos no transporte pedindo aos céus que aquela tortura terminasse logo. Hoje eu fico 30 minutos, não muito rápido ainda, mas já conseguindo até dizer um oi pros gatinhos da academia.

Claro que o meu programa não é como na TV, mesmo porque eu trabalho, estudo e tenho um dia todo pela frente. Mas os treinos são puxados de pingar em cima do colchonete e, o mais engraçado, é que eu adoro. Eu, que sempre detestei estas coisas (inclusive até escrevi sobre isso uma vez) amo sair de bochechas vermelhas, com a sensação de ter tirado um caminhão das costas. É muito bom.

Mas para chegar a este ponto eu perdi um monte de coisas. Eu perdi as minhas madrugadas em claro lendo e substitui por acordar cedo e ir para malhação. Perdi 17 quilos, três calças, algumas blusas e vestidos que mais parecem lonas de circo. Perdi o ar de menina, de coitada e de gordinha simpática. Hoje não sou simpática com ninguém que eu realmente não queira. Fiquei pensando em como só conseguimos ganhar as coisas quando nos deixamos perder delas. Como eu poderia querer uma vida nova, um corpo novo se eu tinha uma vida que só estimulava a engorda? Nada de exercícios, muitas guloseimas e nenhuma preocupação com isso. Seria impossível ser a mesma pessoa antes e depois disso.

Mudar não é fácil e não é, principalmente, pelas coisas que perdemos. Se quisermos uma vida amorosa melhor temos que nos livrar dos trastes que ainda ocupam a nossa mente e partir de verdade par outra. Se quisermos que nossas contas parem de dar piti todos os meses, temos que matar e enterrar a patricinha que acha que dinheiro dá em árvore, e nos organizar como gente grande. Se quisermos ser adultos, temos que exterminar o adolescente que teima em viver nas nossas mentes, corpos e corações.

Estou no meio de um processo de perda. Hoje, por exemplo, perdi meu celular, perdi a chave da minha janela, perdi mais um quilo. Na semana passada, infelizmente, perdi aquela tia que outrora descansava à sombra da parreira. Ela está num outro plano, com sua parreira e sua saúde sendo restabelecida. A cada dia eu perco uma nova peça de roupa, um amigo, uma paixão, um livro. Não sei. Tudo o que já foi é porque não era mais. E parar de viver como se estivéssemos dirigindo pelo espelho retrovisor é uma tarefa complicadas para nós, mortais.

Mas, de fato, nesta vida é sempre assim: quem perde sempre, sempre ganha!

Andrea Pavlovitsch

+ artigos

Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.