por Andrea Pavlovitsch

Os perigos da fascinação religiosa

Há alguns anos atrás eu frequentava um templo, reconhecido até hoje como um dos grandes de São Paulo. Quando eu comecei lá o trabalho era muito especial. Trabalhávamos as energias dos elementos, com rituais bem elaborados e cheios de energia. O tempo foi passando, e todos aprendemos muito sobre nós mesmos e sobre a espiritualidade lá. Até um dia em que a coisa começou a degringolar.

Em uma das reuniões, depois de uma sessão especial e maravilhosa, eu pedi a palavra na roda de mulheres. Falei que eu senti uma energia especial de amor, do amor como sendo uma “cola” do Universo. É como se o amor fosse necessário para unir. O amor incondicional, claro. Senti isso muito forte dentro de mim, mas fui repreendida na frente de umas 40 mulheres.

A dirigente dos trabalhos, na época, falou que eu estava errada. “Absolutamente errada” (SIC) foi a palavra dela. “Não tem nada a ver isso aí” (SIC). Confesso que fiquei desconcertada. Sim, eu sei que eu não sou perfeita. Eu sei que eu erro (para caramba) e falo um bocado de besteiras às vezes, mas eu senti aquilo tão forte. Como poderia estar tão errada? Ainda tentei argumentar, dizendo que o sentimento foi genuíno, quem sabe eu não tinha conseguido me expressar direito? Nada, só um não absoluto e o olhar compassivo das companheiras que pensavam “Coitada, ela acha mesmo que está certa”.

Eu tomei aquilo como um erro meu e continuei os meus trabalhos. Mas aí comecei a perceber um padrão de repetição. Quando alguém, ou eu mesma, dizia alguma coisa que não parecia ser “a favor” dos dirigentes (leia-se, não foram eles que “descobriram ou intuíram”) estava veementemente errado. O padrão se repetia em todos os tipos de trabalho e comecei e perceber que outras pessoas também estavam passando por isso.

Um dia, num dos trabalhos, uma das mulheres dizia que estava “vendo” isso ou aquilo (intuições). E a dirigente concordava e batia palminhas histéricas. Eu sentia a voz da mulher (umas das chacretes dela) morta de orgulho de estar “falando certo”. Foi nesse dia que eu percebi: isso aqui não é mais para mim.

O que se seguiu foi que eu saí de lá. E me seguiram muitas das pessoas que concordavam comigo. Não, eu não fiz um motim, não reclamei uma vírgula, simplesmente fui embora sem maiores explicações. Depois de alguns anos eu fiquei sabendo que o lugar ainda existe, mas está vazio e abandonado. A “dona” vive a base de medicamentos fortíssimos psiquiátricos e as pessoas precisam pagar (e muito bem) para continuar frequentando.

Não sou contra você pagar um trabalho espiritual, afinal é um trabalho como qualquer outro. Mas sou contra se isso for absurdo. E existem muitas maneiras de se cobrar a “assistência”, muito mais pesadas e complicadas do que com dinheiro. Existem pessoas que entram tanto num local (aqui nem cabe nenhuma religião, estamos falando de qualquer uma) que não tem mais vida. Estão lá quatro ou cinco vezes por semana. Pensam no trabalho o tempo todo, deixam amigos e familiares para lá. A não ser que você esteja fazendo isso por um período específico (algumas religiões precisam dos seus assistidos dentro do local por alguns dias, às vezes), não é equilíbrio. E esse é o problema.

Se não precisássemos de uma experiência terrena, se fôssemos tão evoluídos assim, não reencarnaríamos. Estaríamos lá sentadinhos ao lado de Deus, tomando um cappuccino e ajudando de longe os pobres coitados da Terra. Mas sim, nós precisamos. Precisamos de trabalho, de família, de filhos, de namorados e até de um barzinho de vez em quando (ou qualquer coisa que o faça feliz como um hobbie ou lazer). Precisamos também do nosso trabalho espiritual, e sim podemos ajudar os necessitados ou as pessoas que estão temporariamente numa situação pior do que a nossa. O resto é ego!

Por ego leia-se você achar que é melhor do que os outros porque conhece, porque sabe. Porque estudou a fundo os ensinamentos, porque viu ou presenciou muitas coisas. Sim, você também tem o seu valor e sim, pode ensinar quem quiser aprender, mas é só isso. Você não é, como acreditavam as pessoas na idade média, um mediador de Deus. Você é um cara ou uma mulher que estudou aquilo. Só. Um professor, por assim dizer. De novo, se a coisa ficou maior do que isso, você está deixando o seu ego dominar o seu espírito.

O grande problema que vemos na religião, e isso não é de hoje, mas desde que ela foi criada como instituição, é que sempre tem um que detém a verdade e o resto que só segue. E infelizmente, independente da religião repito, isso ainda acontece com muita frequência. Às vezes a pessoa até começa aquilo muito bem-intencionada. Quer ajudar de verdade, quer desenvolver um trabalho espiritual porque sente esse chamado, mas depois o ego entra no meio. Não tive o merecimento de conhecer um “Chico Xavier” da vida mas tenho certeza de que ele não se achava o dono da verdade. Quando ouvimos as gravações dele no Pinga Fogo - um programa de entrevistas antigo em que ele respondia sobre o espiritismo - não víamos um só traço de ego nas suas palavras. Ele falava, ouvia quem queria. Ele não queria pompa ou circunstância. Ele fazia o que dava, ele contava o que dava, ele sabia que só aqueles que estivessem mesmo a fim de ouvir entenderiam. E ele sabia que o ego dele não tinha anda a ver com isso.

O problema é que a religião fascina. O poder fascina. Mesmo que seja um poder pequeno, para meia dúzia de funcionários de uma empresa ou meia dúzia de pessoas que frequentem a sua igreja. Já vimos bispos, padres, pais de santo, mães de santo, dirigentes espíritas, pastores e mais uma infinidade de pessoas com dons espirituais magníficos caírem por terra. Enlouquecerem na sua própria verdade. Montando seitas, proferindo “verdades” absolutas em nome de “Deus” ou das “Entidades” ou até mesmo do “Diabo”. A grande ameaça do mundo hoje é a intolerância religiosa nos países do Oriente Médio, por exemplo. É a certeza de uma “verdade” absoluta, que só é absoluta para quem acredita nela.

Eu não tenho religião, por causa justamente destas coisas. Mas eu tenho uma verdade que é minha. Eu sei que é minha e que provavelmente não é sua ou da sua mãe ou dos dirigentes das religiões por aí. Mas ela me faz feliz, ela me preenche e ela responde as minhas perguntas. E é isso que interessa no final das contas. Que a maneira como você quer acreditar em Deus, ou numa energia, ou no Universo, ou nas entidades faça um sentido para você. Que você possa se conectar, possa sentir e não só repetir um montão de tarefas e rezas sem sentido porque “é assim que é”. Questione, pergunte, pense! As pessoas não são boas e nem ruins, elas só são o que elas são e fazem o que acreditam que seja o certo. Então perceba que é o seu certo, se faz sentido para você. Sinta Deus (e aqui coloque o nome que bem entender) dentro de você. Entenda que você é uma parte Dele, uma centelha divina. Estude, frequente a religião que quiser, mas não caia na tentação de achar que alguém pode resolver todos os seus problemas se você “fizer tudo certo”. Isso não existe, nem no tempo de Jesus, nem com Buda e nem com nenhuma das grandes personalidades cheias de luz e amor que passaram complacentemente pela Terra. Jesus nunca fez propaganda de si mesmo. Deus não precisa disso. Um dia todos nós precisamos nos voltar para a nossa espiritualidade, mesmo que você acredite que isso é acreditar em você mesmo e no seu espírito. 

Estamos aqui para aprender, para vivenciar, para conscientizar o quão especial somos aos olhos de toda a criação. E também entender que todos somos um, que cada um tem alguma coisa para ensinar para o próximo e que ninguém é melhor ou pior que ninguém.

Quando pararmos de acreditar num poder exterior a nós mesmo, vamos parar de cair na lábia de egos alheios. Você já tem o seu para dar conta, acredite, é trabalho suficiente!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.