por Andrea Pavlovitsch

Reflexões sobre o medo – Parte 1

Estava aqui pensando no que escrever. Na verdade, como toda boa escritora, eu coloco minhas ideias em um Moleskine (sim, porque já que é para ter ideias, que seja em grande estilo), e depois vou pensando e amadurecendo aquilo. Geralmente vem da observação mesmo, do dia a dia. Ou de processos meus, coisas pelas quais eu passo. E o medo, ultimamente, é uma coisa que vem chamando minha atenção tanto nas histórias dos outros, como na minha própria.

Então resolvi escrever uma série de artigos sobre aspectos diferentes do medo. Aqui, agora, explicarei o medo em linhas gerais mas pretendo esmiuçar cada pedaço de cada um deles. Tenho certeza de que me ajudará a entendê-lo e, quem sabe, a você também.

Medo é ego. Sim, não faz parte da nossa alma. Como uma coisa que sabe que viverá para sempre pode sentir medo? Aliás, escrevo estas palavras com um “q” de nostalgia e tenho certeza de que, ou já escrevi isso antes, ou estou tendo um dejavu. Ou os dois! Pois bem, deixemos para lá, mas voltando ao medo. Medo é coisa do ego, ou da cabeça como eu gosto também de chamar. Medo é aquela maldade que é colocada dentro de nós desde que somos muito, muito pequeninhos. “Cuidado, ela pode engasgar com o leite”, “Coitada, não a deixe sem cobertores senão ela pega um resfriado” e assim por diante. Nós, mesmo bebês, já percebemos a enorme energia do medo a nos rondar. Porque no final o medo é sempre o mesmo, medo que possamos morrer. E talvez por isso o medo de morrer seja o pior medo do ser humano, o que faz com que sejamos cruéis e injustos até, às vezes.

O medo é colocado, ele é uma gravação do seu inconsciente encima de você. Ele não é seu! Entendeu essa parte? O seu medo não é seu! Ele é da sua mãe, do seu pai, daquela tia legal que sempre cuidava de você, das professoras de todas as séries, das irmãs mais velhas, do tio nem tão legal assim, dos avós. Medo é uma coisa plantada. Por isso que os índios não têm medo, não tem nem uma palavra específica que designe medo. Claro que estou falando dos índios naturais, aqueles lá atrás. Hoje eu não sei mais se é assim e nem tenho medo de dizer isso.

Eu tenho uma apreensão em estradas. Não, não chega a ser um medo mesmo, uma fobia, é só um nervoso, uma quase ansiedade. Cansada de sentir isso resolvi encarar o que poderia ser, viajando para a praia, de noite, chovendo e descendo uma serra escura. Deixei que o medo viesse, olhei para os olhos dele e perguntei “ok, o que você quer?”. Sei que parece papo de maluco (e é, na verdade) mas costuma funcionar comigo. Ele não me respondeu na hora, mas me senti imediatamente mais calma. É como se tivesse tomado um calmante leve, o corpo ficou mais solto. Notei o quanto o meu corpo estava tenso, duro e até mesmo dolorido. Deixei que ele se soltasse e até adormeci (não, claro que eu não estava dirigindo, este exercício foi feito um dia antes).

Na volta é que percebi que não tinha ficado nem um pouco ansiosa. Comecei a me lembrar de várias, várias experiências minhas negativas com estradas e viagens. Lembrei de que, quando criança e descíamos para o litoral, na volta meu pai precisava sempre parar o carro no meio da estrada porque o motor esquentava. Minha mãe dava recomendações assustadoras para que não saíssemos do carro sob nenhuma hipótese, com medo de que fôssemos atropeladas ou até roubadas (sei lá o que se passa na cabeça de uma mãe nestas horas). Isso acontecia muitas e muitas vezes. Em outra oportunidade, quando minha avó faleceu, umas das maiores perdas na minha vida, ela estava viajando e nós também. Estávamos no litoral. Um amigo do meu pai ligou avisando e nós arrumamos as coisas, enfiamos no carro de qualquer jeito e subimos a serra. E foi a primeira vez que vi meu pai parar o carro e chorar copiosamente a perda da mãe dele. Minha mãe pedia que não chorássemos e que o deixássemos chorar, quietas. Como eu poderia associar viagem a qualquer coisa boa depois daquilo?

E a minha mente, em um lapso de alta amizade, me contou mais meia dúzia de histórias destas. Acidentes, vezes em que tive crises de pânico, vezes em que voltei chorando por problemas passados. Enfim, um sem número de coisas. Pedi que minha mente me ajudasse a limpar toda aquela energia medrosa de cada célula do meu ser. Eu não queria mais o medo, o nervoso ou a ansiedade. Quero passar a associar uma viagem de carro a uma coisa boa, muito boa. Quero aproveitar isso.

E assim, com o tempo, escreverei sobre outros medos. E você? Que tipo de medo você costuma ter? Ou ansiedade? Escreva para mim e, quem sabe podemos estudá-los juntos?

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.