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por Erickson Rosa

A felicidade está nas pequenas coisas da vida

Dentro de nosso sistema social econômico, há um grande equívoco em achar que a felicidade está na aquisição de dinheiro, bens e benefícios pessoais. Essa forma errônea de pensar foi descrita pelo próprio pensador que originou o sistema do capital, Adam Smith. Smith pensava que poderia haver esse equívoco, mas que a aquisição de bens valeria a pena para trazer mais qualidade de vida às pessoas.

Prazer e satisfação

Smith já tinha a plena visão de que o dinheiro e os bens promovem satisfação, porém não a felicidade. Satisfação e prazer são diferentes de felicidade. Satisfação é quando algo satisfaz nossos desejos ou necessidades. Um exemplo seria a necessidade de comprar uma casa maior para abrigar melhor nossa família. Ao conseguirmos esse feito, nos tornamos satisfeitos com nossa conquista.

Jovem negra sorrindo.

O prazer está ligado à nossa sensação frente às situações que experimentamos. Um exemplo seria ao passar por um dia estressante, sentar-se em um lugar confortável e tomar um belo sorvete. A sensação de prazer é, muitas vezes, utilizada quando estamos em sofrimento. Por isso que, quando estamos com problemas, recorremos a um pedaço de chocolate. Ele atrai o prazer, que disfarça nosso sofrimento.

Felicidade

A felicidade já é diferente. Como diria o professor Ala Wallace, “... ela não está no que recebemos do mundo, mas sim no que levamos a ele”. Nossa felicidade está ligada às pessoas, à conexão que temos com a natureza, na alegria que encontramos quando enriquecemos a vida do outro. Somos levados a pensar que a felicidade está na satisfação e no prazer pessoal que se tem. Mas, na verdade, essas são emoções efêmeras.

Para provar a você que são emoções passageiras, basta lembrar da felicidade de alguma conquista sua. Pode ser a compra de um carro, de uma casa, de uma roupa que o deixou feliz, de uma promoção no emprego etc. A emoção que se sente logo passa, e nos pegamos buscando por mais. Outra coisa que acontece é vermos que aquilo que achávamos ser perfeito tem seus problemas. Com a promoção, vem mais responsabilidade; com a casa e o carro, mais manutenção; e as roupas, logo precisaremos trocar.

Porém a felicidade está mais ligada à gratidão que sentimos pela existência dos outros, pela alegria de poder beneficiar o outro. Sempre que podemos gerar benefícios para outras pessoas, nos sentiremos felizes. Isso acontece porque somos seres sociais, que não são feitos para viverem isolados. Estamos sempre em conexão com este mundo. Se nos retirassem deste mundo, rapidamente morreríamos. Este local não é apenas nossa casa, como também faz parte de nós. Se não estivermos em conexão com os outros e com o mundo, estaremos em sofrimento.

Em meu trabalho no hospital, onde lidei com pessoas no final de sua vida, pude ver o quanto as pequenas coisas, as conexões que elas tinham é que lhes faziam falta. Elas sentiam falta de caminhar descalças no gramado, de fazer carinho em seus animais, de estar em contato com as pessoas que amavam, de poder sentar-se e sentir o sol em seus rostos.

Mulher branca sorrindo.

Esse tipo de apreciação, de olhar o mundo de maneira clara, como ele realmente é, é que produz a felicidade. Conversar e poder rir ao lado de quem amamos é uma grande forma de atingir a felicidade. Expressar a gratidão pelas pessoas que estão com você também enriquece sua vida.

Por mais que o sistema econômico nos faça crer que a felicidade está na aquisição de bens, ela sempre resulta nas coisas simples de nossa vida. A conexão com as pessoas e com o ambiente que nos cerca nos produz bem-estar, felicidade. Se estamos desconectados, iremos sentir a tristeza dessa desconexão e passaremos a buscar alívio no prazer e na satisfação.

Não é à toa que o país mais consumista do mundo (Estados Unidos) também é detentor das maiores taxas de obesidade – cerca de 42% de sua população –, evidenciando uma grande crise de obesidade no país (dados da Trust for America’s Health). Se não cuidamos de nossas emoções, das conexões que fazemos e das pequenas coisas que cercam nossa vida, ficaremos à mercê de situações de dano criadas por um sistema que crê que a felicidade está ligada ao quanto você possui de status, fama e dinheiro.

Entretanto, segundo o documentário “Happy”, dirigido pelo americano Roko Belic, a felicidade está ligada ao sentimento de pertencimento da comunidade, de sentir-se útil a esse grupo e ao senso de propósito que se tem. Essa conexão com as pessoas e com o meio e o que que se pode levar a ele é que nos conduz a um caminho de felicidade.

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Portanto podemos encontrar caminhos mais felizes e menos desgastantes a nossa saúde, desde que tenhamos em mente que a felicidade está distante de um sistema no qual somos avaliados pelo que produzimos. Um senso de utilidade que nos leva a viver um vida de grandes esforços e adoecimento.

Encerro este texto com as sábias palavras de Ailton Krenak sobre o quanto a vida não precisa ser útil: “A vida não é para ser útil. Isso é uma besteira. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade para ela. A vida é fruição. A vida é uma dança. Só que ela é uma dança cósmica e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária, a uma biografia: alguém nasceu, fez isso, fez aquilo, fundou uma cidade, inventou o fordismo, fez a revolução, fez um foguete, foi para o espaço… Tudo isso, gente, é uma historinha tão ridícula! A vida é mais do que tudo isso. […] Nós temos de ter coragem de ser radicalmente vivos. E não negociar sobrevivência.”

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Erickson Rosa

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Psicólogo clínico laureado pela PUCRS. Atende crianças, jovens e adultos. Palestrante sobre a temática do inconsciente.