por Andrea Pavlovitsch

Você é normal?

"“Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz...” Almir Sater 

Vou tocar hoje num assunto bastante delicado e que exige atenção e cuidado: a normalidade. Minha professora da faculdade sempre dizia do dito normal entre aspas quando se referia aquilo que é senso de normalidade. De fato, a normalidade nem existe. Normal é pertencer à norma. E normas são as famosas regras. Regras que ninguém sabe direito quem inventou e nem quando, mas que seguimos à risca com medo de sermos considerados aquilo que é o oposto da normalidade (entre aspas): a loucura.

Hoje, uma senhora de uns 50 anos, famosa figurinha da região, parou na frente da minha loja. Lá da minha arrumação das araras, eu só ouvi um som forte que vociferava à plenos pulmões e que, claro, me chamou muito a atenção. Ela gritava “chega de palhaçada, vamos trazer dinheiro para as meninas... Olha o capricho que tem aqui... Tem até as margaridas... Vamos acabar com este bloqueio.” Minha irmã, que viu a tal senhora antes de mim, pediu que eu não me aproximasse. Achou um tanto estranho o que a mulher dizia fazer tanto sentido para nós.

Lá nas redondezas, a nossa loja é conhecida como a loja das meninas (porque sou eu e mais duas irmãs que tocamos). E na hora do almoço, falávamos justamente sobre um momentâneo cair das vendas, o que, aliás, tem sido sentido por vários comerciantes da região. Não é engraçado?

O mais interessante foi a última frase antes dela ir embora: “Depois dizem que eu sou aquela velha louca, mas será?” Sinceramente, não sei. Eu, como psicóloga, acostumada a viver entre o limite da normalidade e da dita razão, estava sim dando razão para ela. Afinal de contas, será que ela simplesmente inventou aquelas palavras, do nada, mesmo sem entender sobre comércio e sem ter nunca ouvido que aquela é a loja das meninas? Será que ela ouviu isso de alguém pela região e resolveu abençoar a nossa loja gritando na porta de completos desconhecidos? Afinal de contas, quem são os loucos na história?

O Prof. Sérgio Felipe, por exemplo, é um renomado médico psiquiatra que estuda as influências da espiritualidade e dos fenômenos espirituais nas doenças psiquiátricas. Em sua palestra uma vez, eu ouvi que muito do que é considerada loucura são, na verdade, manifestações espirituais de médiuns que não foram devidamente treinados e, em algum momento, passaram a não mais entender o que era a realidade física e a realidade espiritual. Perderam-se no meio termo e não regressaram da viagem que a mente faz a cada manifestação espiritual. E quem entende um pouco da espiritualidade, sabe disso.

Eu não acredito em mundo espiritual, espíritos, etc. Eu simplesmente sei que eles existem desde os meus 12 anos de idade, quando as manifestações espirituais começaram na minha vida. Desde a minha primeira psicografia, da primeira vez que vi um espectro, uma aura e desde a primeira previsão que simplesmente deu certo. E sei que não sou louca. Eu trabalho, pago as minhas contas, dirijo meu carro, faço tudo o que uma pessoa dita normal faz. Mas sou médium e, entre uma fila de cinema e outra, entre uma prova na faculdade e outra, entre uma pilha de pijamas para etiquetar e guardar e outra, e entre um paciente e outro, eu vejo manifestações que definitivamente, não são explicadas pela ciência dita normal.

Então, eu sou o que? Algum tipo de aberração da natureza? Pois é. A norma para ser considerado normal é ter uma vida social do tipo, marido, filhos, trabalho, etc. Mas existem muitos psicopatas que têm estas coisas. Existe muita bruxa (do mal) que tem um trabalho considerado sério pela sociedade, mas que adora fazer um voodoozinho do chefe. E quem é mais normal? Eu? Ela? Ou a senhora que parou na frente da minha loja hoje?

Sinto que precisamos é acabar com as normas sem sentido e sem função. Seguir as normas do transito é bom, porque evita acidentes para mim e para as outras pessoas e não é disto que estou falando. Mas das crenças que simplesmente enfiamos na nossa cabeça quando vemos pessoas ditas diferentes. A normalidade é a forma mais cruel de suicídio. Querer se encaixar em regras e normas o tempo todo, que não façam um sentido claro e real para a gente, nos mata dia a dia. Mata porque nos tira do nosso melhor e nos coloca como mais uma manifestação do preconceito, da injustiça, da dor. Quem é normal demais não aceita que pessoas são únicas e exclusivas e que tem, cada uma, uma missão específica que escolheu seguir. Que cada um de nós é um pequeno grão de areia que é impossível de ser copiado, com uma lapidação tão específica que fica difícil até de entender. Ser humano é ser si mesmo. É acreditar que não existem regras, que não existe normalidade maior do que acreditar e sentir. Acreditar nas suas intuições e que o Universo tem milhões de maneiras de nos dar os recados que precisamos receber. Aquela senhora na minha porta, hoje, foi um recado recorrente. E eu, cá com meus botões, vou passar a prestar ainda mais atenção nisso. E viva a loucura nossa de cada dia!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.