por Andrea Pavlovitsch

Olha o canto da sereia

O mito das sereias é o seguinte: Mulheres belíssimas, de longos cabelos, saem do mar no meio da noite. De suas bocas, um canto sedutor, uma voz maravilhosa que encanta os marujos sedentos de amor e atenção. Elas olham para os navegadores, chamando-os para terem com elas ali mesmo, no mar. Eles, inebriados, nem olham para o lado. São atraídos para aquelas belas mulheres, esperando por uma recompensa maravilhosa. Mas elas são traiçoeiras e, depois de conseguirem seus intentos, assassinam os rapazes sem dó e nem piedade. Só os fortes, os grandes príncipes, resistem ao canto das sereias. Todos os outros foram devorados.

Outro dia, andando no shopping em pleno domingo (e com o Natal batendo na porta) pude perceber milhares de sereias. Elas estavam nas vitrines, lotadas de produtos que, nem sempre, precisamos. Brilhantes, belos, com a iluminação perfeita e as parcelas pequenininhas, que cabem no seu parco salário. Algumas pessoas estão andando e simplesmente param, formando uma fila de encontrões atrás de si mesmas. Mesmo com a reclamação de alguns e outros “olha por onde anda”, simplesmente não conseguem deixar de admirar. Absolutamente mergulhadas naquele encanto de um produto.

Vivemos na era da sedução. Tudo é feito para nos seduzir. As propagandas são maçantes avisos de que precisamos possuir coisas que vivemos muito bem sem até então, obrigada. A chuva de e-mails com ofertas “imperdíveis” é imensa. E junto com eles, alguns propondo negócios escusos para ganhar mais dinheiro. Sim, porque manter o interesse e o desejo precisa de dinheiro. Necessita ter posses para poder adquirir as sereias necessárias e fazer um grande aquário. De todas as coisas que o Brasil poderia ter copiado dos EUA, essa foi a pior.

E a sedução não acaba por aí. As mulheres têm que ser sereias sedutoras. Pílulas, cremes, cirurgias plásticas, dieta e malhação são vendidas como água. “Tenha o corpo perfeito e conquiste o homem que quiser” é a máxima. Não, não tem nada de errado com ter um belo corpo, cuidar bem de si mesma, mas o problema é o custo que pagamos. Eu mesma já cai milhares de vezes nisso.

Lembro-me de quando eu era adolescente. Adriana Galisteu tinha perdido o marido, caído na desgraça nacional e voltado deslumbrante com milhões de quilos a menos e muitos trabalhos como modelo. Ela lançou então a tal “Sopa da Adriane Galisteu”, que era vendida pela TV. Você recebia um monte de saquinhos de uma sopa quase intragável (você entendia porque ela tinha emagrecido assim que colocava aquilo na boca) e uma “coisa” chamada adipômetro. Nele você media as suas “banhas” e quanto delas já tinham ido embora. Só podia tomar a sopa (no almoço e no jantar) e uma ou duas torradas no café da manhã. Tudo sem sal, açúcar e nada, nada além disso. De fato, com esse quase jejum, você emagrecia horrores. Fiquei cheia de olheiras, fraca. Nem conseguia voltar andando da escola mais. Depois de alguns dias, eu nem tinha terminado todos os saquinhos de sopa ainda, desisti. Os quilos perdidos voltaram no mesmo momento, com uns de plus pelo insulto à inteligência do meu corpo. Eu nunca fiquei parecida com ela, nem de longe.

E se você parar agora e fizer uma boa faxina na sua casa vai encontrar milhões de sereias abandonadas. Roupas que nunca foram usadas, aparelhos eletrônicos que você nem sabe para que servem. Celulares de última geração com funções que você não usa e não precisa. DVD´s de ginástica, esteiras que tremem e te emagrecem, produtos para crescer o cabelo. Se você é mulher, deve ter, pelo menos, quatro tipos diferentes de condicionador ou máscara para os cabelos, óleos milagrosos, tudo para te deixar mais sereia. Existe até uma linha específica de cosméticos que lançou a linha “sereias urbanas” e cujos produtos sumiram das prateleiras em minutos. Tudo pelo consumo. Tudo por um desejo que nunca, nunca, nunca acaba.

Podemos, e devemos, consumir. Isso faz parte. Podemos ser prósperos e conseguir as coisas que queremos, que gostamos ou que facilitem a nossa vida. Mas é hora de parar para pensar antes disso. Para que outra calça jeans, se você já tem 14 no armário? Para que outra bolsa preta? Ou um novo celular, se o seu está dando bem conta do recado? Parar e pensar, faz com que a gente pare também de cair em armadilhas. Faça o que você realmente quer, o mundo todo está aí para você.

Pense nisso!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.