por Andrea Pavlovitsch

Mais joaninhas, menos formiguinhas

Sonhei que estava subindo uma espiral de pedra, como aquelas coisas que só existem em Machu Picchu (apesar de eu não ter visto nada assim por lá quando tive o privilégio de visitar). Eu subia e, conforme ia subindo,

formigas começavam a cair em cima de mim. Elas estavam por todos os lados, eram grandes. Eu sabia que não eram perigosas, elas só enchiam o saco na minha subida. Como eu não sabia o que uma formiga poderia ser, recorri ao meu sagrado livro de interpretação de sonhos. Não é um livro comum, como aqueles que compramos nas bancas de revistas, é um livro com a interpretação junguiana e metafísica. E lá dizia “(...) dependendo do contexto, pode ser um aborrecimento, tal como deixar que as coisas o incomodem” (SIC). 

Pois bem, primeiro uma explicação. Mesmo neste livro, nem tudo vai encaixar com o seu sonho. Mas quando você ler alguma coisa que faça sentido, vai sentir que é aquilo e, no meu caso, a frase acima faz sentido.

Eu estava mesmo deixando as formigas tomarem conta da minha vida. Não estava aproveitando as coisas, o dia, os detalhes. Não estava em mim. O estresse, os problemas e a minha eterna dor no corpo estavam me tirando de mim e aí, meu bem, qualquer coisa entra e faz o maior estrago.

Começam a pipocar problemas que, na verdade, não são problemas reais. Alguém que cisma com você, as fechadas no trânsito. O banco que não para de ligar para te avisar que estão te dando mais crédito. A mulher de um seguro que você cotou um dia e que resolveu que você será a próxima cliente dela (mesmo você já tendo seguro). De repente, é como se uma avalanche de pessoas e situações montassem nas nossas costas, querendo mais e mais da gente.

E aí, hoje, dirigindo e vindo para o consultório, vi um homem de uns 70 anos jogando lixo pela janela do carro. E sabemos o tamanho da falta de senso de uma pessoa que (ainda) faz isso. Mas eu resolvi não me preocupar mais, no sentido de não ficar mais irritada com aquilo. Nem com a dupla de “manos” que furou o farol vermelho na minha frente. Nem com a vizinha de cima fazendo um eterna reforma no apartamento (descobri que se ligar uma boa música não escuto a barulheira). Decidi só me focar nas joaninhas.

Em um dos meus filmes prediletos “Sob o Sol da Toscana”, uma personagem conta sua história para a outra. Ela contou que, quando criança, saia para caçar joaninhas. Mas ela nunca conseguia pegá-las. Então um dia ela se cansou e deitou na grama para descansar. Dormiu, e quando acordou estava cheia delas ao redor e em cima dela.

É isso, mais joaninhas e menos formiguinhas. Vamos parar para observar as coisas boas da vida: um café, um homem batendo o martelo para derrubar um muro (pode existir uma linda imagem nisso), uma música maravilhosa (como existem músicas maravilhosas nesse planeta). Ficarmos mais neutros, menos tensos com tudo o que acontece. Abandonar um pouco o nosso lado “herói” ou a guerreira Shena que quer consertar tudo o que está errado no mundo. Não conseguiremos isso, mas conseguiremos coisas boas que simplesmente descansarmos e fizermos a nossa parte.

A minha é melhorar as coisas, o mundo, com a minha energia. Se a sua for reeducar as pessoas a não jogarem lixo pelo carro, abrace uma campanha. Mas faça uma coisa direito e não passe o tempo todo irritado com isso. Procure a sua pequena missão e esqueça o resto. Não dá para dar conta de tudo, nem se irritar com os mínimos detalhes. Como diz o título deste artigo: mais joaninhas e menos formiguinhas. 
 
*(“A chave dos sonhos” de Betty Bethards) – você encontra em Sebos ou no http://www.estantevirtual.com.br

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.