por Andrea Pavlovitsch

Liberte-se de você mesmo

Voltei a dançar. Com a onda do “ballet fitness” e do “jazz fitness”, muitas mulheres depois dos 30 estão tendo a chance de reviver o sonho de infância. Algumas dançaram por anos, abandonando depois pela carreira ou pelos filhos. Mas dançar é uma das melhores terapias que existem (e isso vindo de uma psicóloga).

Quando eu era criança as coisas eram mais difíceis no geral, e lá em casa especialmente. Era complicado manter uma criança (de três irmãs) no ballet e as outras duas não. Até hoje as roupas para apresentação são bem caras, paga-se pelo teatro e as aulas são salgadas. Mas quando podemos fazer a escolha de voltar a dançar, meu Deus, é maravilhoso.

Eu sempre amei dançar. E confesso que quando vi que a academia estava disponibilizando as aulas, fiquei muito feliz. Sim, feliz, mas demorei mais de um ano para ter coragem de entrar na primeira aula de jazz. Me achava velha, gorda, estava parada há tempos, eu não ia ter flexibilidade e nem ia lembrar de mais nada depois de 20 anos das minhas últimas aulas de pliê. Um dia eu resolvi: vou entrar nessa coisa. Nem que seja só uma única aula e eu nunca mais volte, não quero nem saber.

Cheguei tímida, meio pedindo desculpas por existir. A professora me perguntou se eu queria assistir a aula e me recebeu super bem. Peguei confiança e decidi ficar até o final. Teve exercícios de barra, diagonal e de flexibilidade e, no final, eu estava exausta. Para mim é com se me mandassem correr uma meia maratona! Era tudo muito mais complicado.

Mas assim que dei a primeira pirueta a professora perguntou: você já dançou na vida, não é? Fiz que sim com a cabeça, ainda na tal da timidez, e ela respondeu: essa mão é de quem dançava sim, não tenho dúvida. Achei sensacional porque, de fato, era uma mão de bailarina. Os gestos voltaram para o meu corpo assim que eu permiti que eles aparecessem. Foram difíceis, claro, mas foram quase espontâneos. Aos poucos eu fui pegando fôlego (faço a aula hoje, numa boa e nem paro para pegar um balão de oxigênio...rs)!

Na verdade, o meu maior exercício não foi a barra, os saltos ou as coreografias (que agora eu ensaio para uma apresentação formal no final do ano). Na verdade, meu maior exercício foi com a minha cabeça. Minha mente tinha me tolhido de toda a manifestação da dança. Ela me dizia que eu era gorda demais. Ela me dizia que eu era velha demais. Ela me dizia que eu não poderia fazer o que eu quisesse fazer. Pensei, e se ela fez eu demorar um ano para entrar numa aula de dança, o que mais será que ela anda impedindo na minha vida?

Achei sim, muitas coisas. Vou voltar a estudar canto, quero estudar teatro. Vou fazer meus vídeos para o Youtube, vou me apresentar no final do ano num teatro de verdade. Vou fazer o que a minha alma sempre quis e não pôde. Por problemas, por pré-conceitos meus ou da sociedade, por dificuldades financeiras. Não interessa o que você quer. A vida é sua! Faça o que quiser com ela. Se for estudar medicina aos 56, ou jogar handball com seu filho de 14, ou escalar uma montanha com quilos a mais ou aprender a surfar mesmo sem parecer uma sereia e adorar reggae, vá! Vai lá e faz minha filha! Monte um negócio de cupcakes ou venda sanduíche natural na paia. Tudo está aí! Dançar está libertando o meu corpo (emagreci 10 quilos e estou ganhando massa magra), minha mente e, principalmente, o meu coração. 

E você? O que quer, de verdade, fazer da vida? 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.