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por Andrea Pavlovitsch

Filtro mental

Agora sou tuiteira. E espero que o termo correto seja este, porque não tenho muita certeza. Como uma viciada em tecnologia e novidades, eu não poderia deixar de participar desta nova mania. E é mania mesmo, você segue as pessoas que julga interessante e descobre se elas são tão interessantes mesmo. Ou segue pessoas que se acham interessante e vê que não é isso, aí é só não seguir mais.

Uma das minhas prediletas lá no microblog é a Preta Gil. Ela é tuiteira de plantão mesmo, de descrever todas as atividades do dia e postar milhares de fotos. Eu adoro! Nunca pensei que a vida dela fosse tão agitada, com tanto show e com tantas viagens. Eu me sinto cansada só de ver. Ela dorme pouco, canta muito e diverte gente do Brasil inteiro. Coisa de ter a artista na veia mesmo. Bem legal.

O que mais me chamou a atenção no Twitter dela estes dias foi justamente ela reclamando, novamente, sobre as brincadeiras que fazem com ela na rede. O símbolo do Twitter é um passarinho, mas quando está superlotado eles colocam uma baleia sendo carregada por um monte de pássaros, para demonstrar que o Twitter perdeu a sua capacidade (de fato, quantos passarinhos seriam necessários pra carregar uma baleia?). Aí, viram a baleia e disseram que era a Preta.

Entendo, até porque sou bem mais gorda do que ela, o que é ser criticada. Entendo que dá uma raiva danada, que dá vontade de socar, mas entendo também que cada um atrai para si aquilo que seus ouvidos são capazes ou não de ouvir. Quando eu passei um período muito ruim na minha vida eu ouvia muita brincadeira de mal (péssimo) gosto sobre meu peso. Hoje que estou bem, tranquila e mais consciente, não escuto mais nada. Nem quando passam na porta da minha loja, que vende tamanhos especiais, e dizem que a manequim é uma baleia. Nada.

Não é que as pessoas pararam de falar. Pessoas têm bocas. Elas abrem as bocas e de lá pode sair qualquer coisa do Universo. E pior, as pessoas pensam que preconceito é só contra negros e judeus e há muito que isso não é verdade. O preconceito é tão enraizado, dentro de casa mesmo, que nem percebemos que ele existe.

Uma vez eu vi uma mãe passando na porta da minha loja e dizendo a filha um pouco gordinha “Está vendo? Se você continuar comendo vai ficar que nem essa gorda horrível.” Pronto, né? Não precisa dizer que esta coitada, se não virar anoréxica, vai sofrer com o peso pra sempre e , se não tiver, vai desenvolver um preconceito que ela nem vai saber onde começou. Enfim, o mundo é isso aí.

Mas o problema não é quem fala e sim quem escuta. Os ouvidos sem freios e sem filtros deixam entrar toda a porcaria do Universo para dentro. Isso pode ser preconceito, raiva de alguém que te fechou no trânsito, ódio de uma pessoa ou de uma situação, raiva de Deus. As críticas são tão ferrenhas em alguns momentos que as pessoas simplesmente desistem de seus sonhos porque alguém disse que aquilo era ruim. E nem é uma pessoa importante não, viu, às vezes, é só uma senhora com quem você cruzou no ponto de ônibus. Isso porque os ouvidos não têm filtros. Tudo o que o outro diz é verdade. E o que está escrito então? Nossa, aí o bicho pega. Ainda mais no Brasil, qualquer coisa que estiver publicada num livro vira verdade absoluta. E não é assim, né?

Verdade é aquilo que está de fato na nossa alma. Não é o que colocaram na gente, colocaram pra gente acreditar. Tantos homens adoram uma gordinha, mas não têm coragem de assumir perante os amigos com medo do que vão pensar dele. Tantas mulheres adoram um gordinho, um negro, um judeu (coloque aqui qualquer minoria que você quiser) e não podem assumir ou não se permitem. Que coisa mais chata essa de seguir o mundo como se fosse verdade. Você tem todo o direito do mundo de não gostar de gordos, mas que isso seja algo que você parou, pensou e chegou à conclusão que não gosta, ué! Não porque a sua mãe enfiou isso na sua cabeça, mas porque você concluiu isso, observou e está escutando a sua alma nesta ou em qualquer outra decisão. Ir pela cabeça dos outros é coisa de adolescente que não quer crescer. E crescer, apesar de dolorido, é completamente delicioso!

Menos língua, menos orelhas e mais alma para todo mundo!

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.