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por Andrea Pavlovitsch

Onde está o respeito aos mais jovens?

Acabo de chegar do banco. Minha semana não foi nada fácil. Eu peguei uma gripe que durou duas semanas e minha tosse parecia a de um cachorro louco. O módulo de proteção do meu banco não funciona e a senha do meu cartão deu pau. Como fiquei doente e não consegui pagar as contas pela internet e nem pelo caixa eletrônico, estou com coisas atrasadas, bem atrasadas e tentando arrumar uma maneira de pagá-las. Aí tive a brilhante idéia de ir ao banco.

Cheguei lá feliz porque o banco me parecia justo. Ele tem três caixas somente, então eles colocaram cadeirinhas para os coitados sentarem e senhas para os coitados pegarem. Na teoria é lindo. Mas na prática só tem uma mocinha loira atendendo, que é tão simpática com todo mundo que dá ódio - precisava mesmo explicar para uma fulana que quando você atrasa uma conta você paga multa e juros todos os dias de atraso?

Bom, cheguei e peguei a senha de número 65. Ela atendeu o 62, 63, 64 e nesta hora começaram a entrar vários, vários idosos na agência. Cada um deles, no total de seis, pegou sua senha de atendimento preferencial. E eu, fui ficando para trás. Eu já tinha esperado pelo menos 15 minutos pelos números normais. Depois que se passaram mais de 30 minutos e os velhos não acabavam eu não agüentei e fui embora. Possessa da vida. Com muita, muita raiva mesmo.

A minha raiva não é dos idosos, mas do sistema de coisas. Eles falam em respeitar os idosos, mas eu me pergunto por que só eles? Se fossemos realmente levar as coisas a ferro e fogo, um homem de 65 anos hoje em dia não é um velho. Eu sei por que meu pai tem 62 e tem muito mais energia e faz muito mais coisas do que eu aos 33. Minha mãe com 54 é a biônica formiga atômica e eu não tenho tempo para nada, não posso ficar doente senão não pago as minhas contas do mês e vivo correndo para cima e para baixo atrás de sei lá o que.

Onde está o verdadeiro respeito? O real respeito pelo ser humano? O banco cumpre uma lei feita por pessoas que não freqüentam banco algum - pelo menos não no Brasil. As pessoas que tem milhares de tarefas para cumprir por dia ficam para trás porque são jovens e podem esperar. A conta do banco não pode esperar, eles te multam. Mas você pode passar 1 hora e meio sentado esperando um monte de velhinhos passarem na sua frente. Eu não entendo estas coisas. É hipócrita até os ossos. Falam de respeito, mas onde está o respeito quando você precisa entrar numa via expressa com seu carro e ninguém se digna a diminuir a velocidade.

Onde está o respeito quando, no meio do feriado na praia, um pedreiro resolve martelar a parede e acordar todos os vizinhos às 7 da manhã. Onde está o respeito quando uma perua de Tucson (nada contra a Tucson, adoro) estaciona na porta do banco, fechando duas vagas que ficam inutilizadas porque ela quer parar o carro dela. Onde está o respeito dos pais pelos filhos, que não dão limites nenhum e criam verdadeiros idiotas perdidos no mundo. Onde está o respeito do motorista de ônibus que dirige a altas velocidades e derruba todo mundo lá atrás. Onde está essa porcaria de respeito que não vejo em lugar nenhum e mal sei o que é?

Não sei se é porque eu fui criada diferente. Meu pai e minha mãe sempre me deram uma coisa simples chamada educação, que a maioria das pessoas não dá aos filhos hoje. Tudo pode para não traumatizar, para provar pro pai e pra mãe que eles serão pais mais legais. O resultado são crianças gritando em restaurantes porque querem não sei o que, são moleques correndo pelos corredores se enroscando em você (outro dia quase fiquei nua no meio do shopping quando um moleque de uns oito anos, brincando de se esconder em mim, enroscou no meu vestido tomara que caia que quase levou junto com seu tênis). Onde está o respeito pelos mais jovens?

As pessoas têm pencas de filhos. Pencas e mais pencas sem nenhuma condição. Aí vai à TV pedir escola e saúde para eles. Outro dia vi o Sidney Magal dizendo que o problema não é o governo dar ou não, mas ele dar conta de tanta criança e pedindo que as pessoas se conscientizassem do que fazem. Meu Deus, quem tem filhos sabe o quanto custa para educar uma criança, para dar para ela condições de ser uma boa pessoa no futuro. O mundo está mesmo virado do avesso.

Eu não tenho pena de ninguém. Nem dos idosos (que são só pessoas que aprontaram a vida toda como nós mas tiveram a sorte de chegar aos 65), nem dos pobres cheios de filhos (afinal de contas qualquer posto de saúde hoje ensina como evitá-los), nem dos desempregados, nem de quem sofre por coisa nenhuma. Porque eu sou humana, estou encarnada e também tive que ir atrás de cada uma das oportunidades que tive na minha vida. O ser humano, como eu ouvi na novela ontem, é ação. Ele encarna para agir e não para pedir e nem se sentir o coitadinho na frente da fila de um banco, desrespeitando as pessoas que tem coisas para fazer. Uma coisa é ter um caixa exclusivo para idosos. Outra coisa é tirar a vez dos outros.

Não tenho pena, principalmente, de mim. Que encarnei neste mundo por algum motivo que ainda não consegui entender. Algo eu preciso aprender. Principalmente a me respeitar muito e a respeitar as pessoas ao meu redor. Mesmo que a minha parte seja ínfima e praticamente não apareça na totalidade das coisas que me irritam no planeta.

Gente, respeito. Respeite-se e respeite o outro. Dentro do outro carro tem um ser humano e não um inimigo. Do outro lado do telefone é uma pessoa e não um problema a ser resolvido. Somos todos um, irmãos, precisamos nos conscientizar disso o quanto antes. Os infartos não vão cessar enquanto não houver respeito

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Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.