por Paulo Bregantin

Ser do bem é ser um SER humano do bem

Fazer o bem é sem dúvida o maior desafio do ser humano, pois no mundo em que vivemos, onde a ambição, ganancia, “espírito do empreendedorismo”, mentiras, políticas, entre outras bobagens que nos impuseram nos últimos anos, realmente torna-se muito difícil falar em ser uma pessoa do bem. 

Vamos dividir o processo de fazer o bem entre interno e externo. 

O que descrevi acima é da ordem do externo, pois quando observamos a evolução do ser humano percebemos que o fazer o bem não tem sido mais demonstrado por aqueles que deveriam nos ensinar, hoje vivemos em um tempo onde os pais e líderes em geral demonstram que para ser “alguém” é preciso ser o melhor, o primeiro, a exceção e não a regra, ser ótimo no que faz, ser sempre o destaque onde estiver e não permitir que lhe tire seu “lugar” na vida. Com isso, criamos pessoas corajosas, porém extremamente individualistas e narcisista ao extremo, criamos seres humanos voltados para si mesmos, seres humanos independentes – lembrando que a palavra independência é na sua origem rebeldia – com a independência ficamos solitários e, com o advindo da solidão ficamos mais agressivos conosco mesmos e com os outros, pois não sabemos mais dividir e perdemos o sentido de mutualidade. 

Do outro lado, ou seja, o que diz respeito a ordem do interno, creio que aí está o grande desafio dessa nossa geração, pois é onde se encontra o bem, sim, é interno que o bem se manifesta e, por tudo que descrevi acima, temos incubado dentro dos nossos calabouços internos (alma) o bem que foi nos ensinado pelos nossos ancestrais. O bem interno, creio eu, é a fagulha Divina que clama para se manifestar. O bem interno precisa ser novamente explorado. Acredito que o bem interno está intrinsecamente ligado em cada ser humano, sim, creio que todos os seres humanos têm dentro de si o bem instaurado e precisa de estímulos para ser liberado para o mundo externo. 

O bem interno é na realidade muito mais que um sentimento em fazer a coisa certa, ou ajudar uma ou outra pessoa, na realidade fazer o bem é colocar em prática o que chamamos de ética moral. A ética moral é redescobrir os ensinamentos primordiais de respeito por si mesmo e pelos outros, é reencontrar o desejo da mutualidade e da dependência e até mesmo o sentido real da palavra humildade. 

Quero me ater nessas três palavras, que acredito sejam as principais para voltarmos a ser pessoas do bem, mutualidade, dependência e humildade. Nesse tripé estão contidas as essências primordiais para praticarmos o bem e, retomarmos em nosso interno a fagulha do bem que todos nós seremos humanos temos.

 

 

A mutualidade é, no sentido simples da palavra. Eu preciso de você e você precisa de mim, ou seja, viver mutuamente é entender que o que eu tenho me pertence, porém pertence ao outro também, torna-se imperativo na mutualidade dividir tudo que temos, aprendemos e possuímos. Saber dividir é uma ação da mutualidade. O sentido emocional de mutualidade todo ser humano tem no seu interior e, deve ser desenvolvido com exercícios de doações de si mesmo para com o outro, cuidados especiais com os familiares, amigos e com quem não conhecemos. O exercício da mutualidade retira do ser humano o desejo de maldade e individualismo. É curador quando exercitamos a mutualidade nos relacionamentos e empreendimentos profissionais. A mutualidade aplicada diminui os desejos de posse exacerbada e fora de propósito. A mutualidade nos leva a consciência de cuidar do outro como algo normal da vida. 

Vivendo a mutualidade saímos da independência e nos apossamos da dependência, pois a dependência no mundo atual é tida como alguém que não “se mexe” ou vagabundo, etc. Não é sobre isso que estou escrevendo, pois quando penso em dependência imagino algo como não posso viver sozinho e em solidão, “não somos uma ilha”, não posso viver em rebeldia com o meu semelhante. A falta de dependência entre os seres humanos tem nos levado a relacionarmos com outras espécies, ou seja, hoje é muito mais comum nos relacionarmos com gatos, cachorros, etc. do que com pessoas. Existem hoje uma infinidade de pessoas que dedicam muito mais amor para os animais de estimação do que para com os semelhantes. Veja, não sou contra ter animais de estimação, creio até que é algo muito bom e salutar, porém, quando coloco meu semelhante inferior ou no mesmo pé de igualdade quando falamos de amor, deve repensar sobre dependência. A dependência é fundamental para ter e manter relacionamento com os iguais (seres humanos) sem o desejo e a pratica da dependência nos tornaremos mais violentos e solitários e em muitos casos levando até a solidão, angústias e depressão. Sim, a falta de mutualidade e dependência nos leva a doenças psicossomáticas e patológicas emocionais, aumentando o estresse, a ansiedade e pôr fim a depressão.

Como consequência de uma retomada do bem interno através da mutualidade e dependência seremos levados, de forma gradativa, a vivência da humildade. A humildade como consequência da aplicabilidade na vida da mutualidade e dependência nos levará a uma consciência sobre viver o amor e a paz. Teremos muita dificuldade de implantar o amor e a paz como estilo de vida se excluirmos do nosso dia a dia a mutualidade, a dependência e como consequência o exercício da humildade. 

Algumas ações práticas e simples podem ser feitas como exercícios para retomarmos e voltamos a aplicar a mutualidade, a dependência e a humildade gerando assim uma rede do bem que poderemos chamar do Reino de Amor e Paz. 

  • Evite excessos na vida relacionados a trabalho.

  • Viva com o mínimo necessário.

  • Cuide das pessoas do seu núcleo familiar.

  • Mantenha suas amizades sadias.

  • Evite projetos e planos que excedam sua capacidade atual. Vá com calma com suas conquistas.

  • Critique menos e crie mais.

  • Ame mais e odeie menos.

  • Faça ações de caridade.

  • Evite brigas e discussões desnecessárias.

  • Se possível viaje e descanse.

  • Leia bons livros.

  • Cuide do seu corpo.

  • Passe adiante coisas boas. Evite passar adiante coisas ruins.

  • Cuide e respeite os mais velhos.

  • Ensine os mais novos bons hábitos. Evite ensinar para os mais novos coisas ruins.

  • Visite os enfermos.

  • Fale palavras que paz e amor para com os semelhantes.

  • Tenha animais de estimação, porém, não substitua os semelhantes.

  • Fale mais verdade e menos mentira.

Claro que a lista pode e deve ser aumentada, porém acho que praticando alguns desses itens teremos iniciado o processo do bem que está dentro de nós e vamos diminuir as expectativas que estão no externo de nossas vidas. 


 

Paulo Bregantin

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Mais de 25 anos dedicado ao cuidado de pessoas, sendo Psicanalista Clínico e escritor com várias obras publicadas. Atua nas redes sociais como dono, gerenciando a página Paulo Bregantin e o Grupo Psicanálise Integrativa.

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