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por Erickson Rosa

O poder de falar o que se deseja

Nenhuma habilidade levou a humanidade tão longe quanto a sua capacidade de fala e escrita. Nossa linguagem fez com que pudéssemos registrar descobertas e conhecimentos e, assim, poder avançar em pensamento e tecnologia. Essa incrível capacidade de nos expressarmos gera livros, vídeos e nos aproxima uns dos outros.

Entretanto nem sempre nossa fala nos aproxima. Ela pode, muitas vezes, gerar problemas e nos distanciar de quem amamos. Ou, ainda, pode nos deixar tristes e distantes de nossas necessidades, fazendo-nos entrar no reino da carência e depressão.

Neste texto, quero abordar com você como nossa comunicação pode nos alienar de nossa vida, como pode nos afastar de nossas verdadeiras necessidades e como podemos retomar uma forma de falar que nos permita reintegrar nossas emoções e nossos pensamentos, gerando assim melhores relações com os outros.

Comunicação alienante

Marshall Rosenberg, autor do Livro “Comunicação Não Violenta”, postula que todos nós temos uma comunicação que nos aliena de nossa conexão com a vida. Minha experiência como terapeuta e líder de uma equipe de negócios comprova sua afirmação. Em minha rotina como gerente de uma equipe de consultores de projetos, vejo que muitas das falas de clientes, fornecedores, colaboradores e até mesmo gestores é uma comunicação que não expressa o que eles realmente sentem e desejam.

Homens brancos conversando.

Da mesma forma, em minha função de psicólogo, quando as pessoas vêm até a clínica, geralmente sua fala refere a avaliações e julgamentos de suas ações e dos outros, mas quase nunca a conexão dos eventos com suas emoções. Esse tipo de olhar sobre a vida promove sofrimento por não entendermos como nos sentimos em relação às situações da vida. Falta um conhecimento emocional sobre nós mesmos.

A comunicação alienante é quando realizamos 4 ações de fala e de pensamentos conosco ou com as pessoas. São elas:

Julgamentos

Podemos ter dois tipos de julgamentos. O julgamento sobre nós mesmos e o julgamento sobre as outras pessoas. De maneira geral, quando nos julgamos, fazemos isso sem compaixão por nós mesmos e nem por nossas falhas. Achamos que devemos sempre acertar e não vemos o quanto o erro pode nos ensinar. Culpamo-nos como uma maneira de punição pelo erro que aconteceu, mas esse tipo de ação não gera nada além de sofrimento.

Da mesma forma é o julgamento sobre o outro. Condenamos as ações das pessoas sem entendermos o que elas estavam sentindo naquele momento, do que realmente necessitavam e que condições elas tinham para agir da maneira como agiram. Se tentarmos profundamente verificar o que estava por trás de cada ação, teremos compaixão pelas pessoas.

Precisamos gerar a compaixão por nós mesmos, entendendo que, em cada situação da vida, sempre tentamos fazer o melhor que podemos. Assim como também devemos gerar a compaixão pelos outros. Talvez eles ou nós não tenhamos agido da melhor forma, mas foi a melhor maneira que conseguíamos naquele momento.

Rotular

Toda vez que rotulamos, congelamos nossa visão sobre nós mesmos ou sobre as outras pessoas. Assim tiramos de nossa visão a capacidade de mudança que nos é tão natural. Se nos rotulamos de irritados, tristonhos, mal-humorados etc., criamos em nossa mente que somos esses estados emocionais, quando na verdade eles estão sendo manifestados. É como se a água estivesse em um estado turbulento. Ela está turbulenta, mas, se a colocarmos em um outro ambiente, mudará.

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A visão de nós versus os outros também é criada por meio dos rótulos. Achamos que aquela pessoa é de tal e determinada forma. Achamos que ela nunca mudará e damos um rótulo a ela. Isso gera uma reação de violência. Criamos um inimigo que apenas está em um ambiente turbulento. Porém, se mudarmos os referenciais daquela pessoa, ela também poderá mudar.

Comparar

Temos um pensamento utópico de que o outro está sempre em perfeita felicidade. Olhamos para nossos dramas pessoais e, ao vermos a grama do vizinho, ela sempre parece mais verde. Essa comparação gera sofrimento, e, quando nos sentimos comparados em algum nível com os outros, nos sentimos menores. A avaliação entra em ação, e comparamos para ver se estamos melhor ou pior.

Dois homens olhando algo no celular e comentando entre eles

Não consideramos que, na verdade, somos singulares, únicos. Cada história forja uma pessoa diferente e especial em sua expressão única no Universo. Não existem dois de você.

Aceitar essa singularidade é também aceitar que há diferenças entre você e os outros.

Negar a responsabilidade

Negar a responsabilidade é quando dizemos que a ação do outro nos afeta, mas não temos a responsabilidade por nossas emoções. Por exemplo, eu posso dizer a uma pessoa: “A maneira como você bate no teclado me irrita”. Isso é colocar a responsabilidade quanto ao que eu sinto na ação do outro, sem me responsabilizar por aquilo que está acontecendo internamente.

Uma maneira melhor de me comunicar seria observar profundamente que emoções surgem internamente e que necessidade não está sendo suprida ao tomar contato com o gatilho que é o toque do outro no teclado. Ao avaliar dessa forma, poderia dizer: “Quando você toca no teclado com força me desconcentra e preciso me concentrar para fazer esse trabalho. Quando me desconcentro, fico irritado. Poderia, por favor, cuidar para não bater tão forte no teclado?”.

Veja que a responsabilidade do que sinto se dá pela minha necessidade de me manter concentrado. A batida no teclado apenas aciona isso que eu sinto.

Expressando os desejos do seu coração

Precisamos aprender a expressar nossos verdadeiros desejos, entendendo o que está por trás de cada emoção que surge ao entrarmos em contato com o mundo. Isso se estabelece nos princípios que Rosenberg nos traz: observar, sentir, entender a necessidade e fazer um pedido.

No exemplo acima, observo o que o outro faz (bater forte no teclado), entendo qual sentimento isso me desperta (ansiedade, raiva, estresse) e qual necessidade minha não foi suprida (concentração), e então faço um pedido à pessoa (por favor, não bater no teclado).

Isso não faz com que a pessoa necessariamente pare. Mas observe que não há julgamento, comparação, rótulos ou uma negação da minha própria responsabilidade pelo que sinto. Assim a pessoa não se sente atacada e poderá até mesmo atender ao meu pedido.

Homem branco sorrindo com a mão no rosto.

Essa forma de falar também faz com que possamos nos conectar mais aos outros, pois, ao mostrarmos como nos sentimos, podemos entender como os outros se sentem.

Este é um breve texto falando sobre uma maneira assertiva de se comunicar, como também de se conectar verdadeiramente com os outros. Se quiser se aprofundar nisso, pode me escrever, que irei fazer mais textos falando sobre esse assunto.

Espero, do fundo do coração, que tenha ajudado você em seu dia.

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Erickson Rosa

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Psicólogo clínico laureado pela PUCRS. Atende crianças, jovens e adultos. Palestrante sobre a temática do inconsciente.