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por Vander Rocha

Qual é o seu deus?

Todos nos somos detentores das energias necessárias ao caminho da vida, permitindo sairmos das fraquezas humanas para a iluminação interior num aprendizado contínuo. O conhecimento de si mesmo e o da razão do viver nos livra das ilusões e superstições, tonando esse caminho da vida suave sem precisamos de deuses.

O equívoco de muitos procede da paixão a que se entregam aos valores que entendem serem expoentes da fé, colocando-os em tronos de fantasia e atiram-se aos pés de símbolos, sentindo-se, perante eles, inaptos, postando-se em cultos exteriores, revelando-se muito atentos aos cerimoniais e ritos referentes à crença, dando a isso o cabeçalho de espiritualidade ou prática dela.

A idolatria é entendida de forma restrita, ou seja, de prestar cultos a ídolos sob a forma de figuras esculpidas ou pintadas, que no entender de muitos, diz respeito a imagens, estátuas, símbolos e afins.

Dentre outras citações evangélicas levadas a exemplo de idolatria é “Mamom” como se fosse o oposto de Deus, visto a menção dizer que: “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. 

No entanto, essa palavra não designa nenhum deus profano, ela vem do hebraico e significa dinheiro, levando por extensão a todos os bens materiais pelos quais se apega, morre ou  mata, guerreia e injustiça.

É a palavra “mamom” que nos chama a escrever este artigo. Não é possível servir a Deus e ao dinheiro, melhor, às riquezas materiais. No sermão da montanha nos é esclarecido isso quando é dito: “Bem aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus”. Obviamente “pobre de espírito” não significa idiota, já que quem disse esse ensinamento não o era. No texto grego das bem aventuranças, traduzido para o latim vulgar e que hoje o temos como Evangelho, está “pobre pelo espírito” e não “pobre de espírito”.

Pobre pelo espírito mostra aquele que embora possuindo riqueza material, espiritualmente não é dominado por ela, ou seja, ele a possui, não é possuído, permanecendo pobre em espírito, não idolatrando os bens materiais.

Se o amor excessivo por algo resultar em paixão e dedicação absoluta a ponto de se oferecer a ele, poderá se transformar em idolatria por divinizá-lo. Abre-se, então, um amplo leque de adorações, de endeusamentos quando vemos que o alcoólatra idolatra o álcool. Sem ele se perturba, se perde. É ele que lhe dá confiança, é ele quem lhe encoraja, dele é dependente, é ele o seu deus.

Dos etilistas estendemos esse entendimento para os dependentes químicos, fumantes, e demais imoladores de si próprios aos deuses a que se entregam. A viciação é forma de idolatria, porquanto sua dedicação ao objeto do vício é tamanha a ponto de o  louvar, de o enaltecer.

O viciado em sexo tem nele o seu deus. Se homem, desnuda em pensamento a mulher que passa. Mas se for o inverso, as ideias mais promíscuas se assenhoram das mentes femininas viciadas. Os pervertidos em jogos têm nas cartas, nos dados, nas roletas os seus deuses.

Se o ídolo for a comida, se comerá muito. A comida será a recompensa quando estiver feliz e o conforto quando estiver triste. Se o ídolo for a própria reputação, o indivíduo fará de tudo para impressionar aos demais porque ele pretende que as pessoas o vejam como expoente.

Os idólatras descontrolam-se com facilidade, preferem matar a morrer e continuam em fervorosa adoração aos seus ídolos, embora neguem suas paixões, seja ao sexo, ao jogo, ao álcool ou aos demais deuses. 

Eles são tão dedicados que calculam com cuidado as suas justificativas, para que suas dependências não sofram prejuízos e que seus queridos deuses não sejam derrubados dos tronos.

Os ídolos são deuses mentirosos que oferecem algo que parece bom. E, repetindo o que dito no início, o conhecimento de si mesmo e o da razão do viver nos livra das ilusões e superstições, tonando o caminho da vida suave, sem precisarmos de deuses.

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Vander Rocha

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Administrador, professor e palestrante. Autor de diversas obras literárias de temáticas espirituais, entre outras. Além disso, é membro da Academia Popular de Letras do Grande ABC.