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por Daniel Nunes

Sonhambular - o respeito ao sonho de todas as noites

Esses dias ouvi um termo que me tocou - Sonhambular!! Um jeito de viver no qual mantemos ligados dia e noite, vigília e sono, consciência e inconsciente! Um jeito de colorir a vida com as paisagens e personagens que brilham atrás de nossos olhos quando estes se fecham ao fim do dia. Paisagens e personagens que, qual seiva que sobe silenciosamente o tronco de uma árvore, vem tocar nossas experiências do dia a dia e dão a elas um sentido maior e uma conexão com a força espiritual que anima a cada um de nós.

Esta é certamente uma das técnicas da arte de viver. Quem assim vive não sente o dia como tons de cinza. Não há como ficar apático aos acontecentes. Tudo acontece o tempo todo! A alma acontece! A alma acontece no mundo enquanto o mundo oferece à alma as imagens acontecentes!

Essa é uma descrição lúdica de um processo que ocorre na terapia junguiana. Os sonhos são, na análise, uma grande ferramenta terapêutica. Cada sonho que temos vem carregado de símbolos criados misteriosamente por uma inteligência existente no interior do ser humano. Uma inteligência capaz de reunir dados do nosso cotidiano, nossos desejos, nossa história e mesclá-los com elementos mitológicos de toda a humanidade, com elementos da história e do conhecimento imemorial do homem sobre a Terra.

E por que isso acontece em nós? Será que a Natureza daria ao homem uma capacidade tão singular como essa apenas por capricho? Eu penso que seria muito mais fácil, se assim fosse, apenas dormirmos e, após uma vazia lacuna em nossa consciência ao longo da noite, acordarmos para mais um dia de uma existência cronológica e pragmática. E é precisamente assim que muitas pessoas acabam vivendo, por negar sistematicamente uma relação com seu mundo interior.

Jung usou uma palavra pouco conhecida para descrever a função de um sonho. Ele disse que o sonho é teleológico. E isso quer dizer que ele almeja algo, que tem um sentido. Podemos imaginar uma flecha apontada para as estrelas, ou um olhar para o horizonte de um caminhante que quer encontrar seu destino. Assim devem ser vistos os sonhos.

Existem muitos dicionários de sonhos, mas estes geralmente sufocam as grandes possibilidades de se fazer um verdadeiro trabalho com sonhos. Cobras é sinal de azar, formiga é isso e rato é aquilo, etc. Exageradamente eu digo que isso é um crime, pois perde-se uma ótima oportunidade de se ampliar a consciência. Uma oportunidade de se conhecer mais uma parte da infinitude que, qual um oceano, banha nossa pequena ilha de consciência.

A análise de um sonho não é bem uma interpretação. Para que se chegue a alguma compreensão do significado de um sonho, buscamos ampliá-lo até onde alcança nossa capacidade. Jamais conheceremos tudo, mas isso não é um problema.

Cada elemento ampliado no sonho é uma janela para a alma. Nossa capacidade é limitada, mas a alma é infinita. E quando uma compreensão de um sonho emerge verdadeiramente, a pessoa sente um tremor, um arrebatamento que a lança a uma nova visão de si e do mundo. E agora eu não exagerei! É isso mesmo! Eu chego a acreditar que os anjos celebram esse momento, pois aquele indivíduo que sonhambulou cumpriu com seu compromisso perante a Natureza, da mesma forma que primavera-se uma flor.

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Daniel Nunes

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Reside em Campinas, SP. Atua como terapeuta com especialização em Psicologia Junguiana. Tem formação complementar na técnica de Renascimento, que utiliza em consultório durante o processo de terapia. Há 10 anos ministra cursos de Astrologia Psicológica.